Love people and use things

Provavelmente hoje é um dia comum para você, pra mim também. Você acordou, passou a vista nas notícias, tomou seu café, ou não, eu mesmo raramente tomo. Banho, escova os dentes, roupa, trabalho, faculdade, academia…

Nesses dias comuns a gente vira experimento, quase um ratinho de laboratório nesse grande complexo de estudos que é a sociedade. São centenas e centenas de pessoas dizendo o que devemos ser, fazer, usar. Padrões são estabelecidos a cada instante, a cada novo influencer… Quem imaginou que influenciar pessoas iria virar profissão? Se você está fora desse contexto prepare-se: você será taxado como diferente. Se você não segue os rótulos será rotulado. É simples! Uma galera passa o dia dizendo o que você precisa ter, e ser. No fim você se cobra e entra nesse turbilhão para ser aceito. Uma merda né?

Nesse ritmo, essa sociedade, com um significado bem distante dos dicionários, termina nos levando a um caminho bem diferente do que sua real proposição. Somos “treinados” a amar as coisas, assim como amamos as pessoas.

É assim, um ciclo. Terminar o colégio, prestar vestibular, se formar, estágio, emprego de sucesso, casa própria, carro do ano, família, filhos, previdência privada, aposentadoria e com a gente um monte de coisas que não precisamos e acumulamos. Ah! Depois a gente tá velho, cheio de doenças do mundo moderno e pronto para morrer sem ter vivido, praticamente nada.

A sociedade termina nos cobrando, e crucificando por qualquer fracasso, mais do que nós mesmos. O pior que é muito difícil se livrar disso. Eu mesmo entrei nessa paranóia. Entrei e estou custando para sair dela. Até o processo de entendimento de que se está nesse coletivo suicida é duro e árduo.

É um exercício diário. Será que eu preciso disso? Será que preciso daquilo? Onde isso me acrescenta? O que eu tenho me é suficiente? São questionamentos educativos que são totalmente pertinentes para que possamos viver mais a vida e menos as nossas coisas.

Somos diariamente rotulados de acordo com o que temos e não com o que somos. Um modelo de celular me diferencia de você? Não! Óbvio que não. Porém, na prática, isso funciona de uma forma bem diferente. Ter o último lançamento de um celular, por exemplo, lhe torna mais importante do que a outra pessoa. Isso é surreal. É inaceitável.

Assim também é para o que vestimos. Qual a diferença de uma camiseta preta, por exemplo, de uma confecção nacional ou daquela marca estrangeira que gasta fortunas em desfiles de moda? Tirando o possível trabalho escravo e  centenas de reais, nada! Roupa deveria ser tratado como comódite. Porém o valor agregado que a sociedade colocou através de marcas faz com que as pessoas se diferenciem e se coloquem acima das outras por isso.

Repito, estamos vivendo numa roda gigante onde somos valorizados pelo que temos. E o mais preocupante de tudo isso é que essa rotulação, e consequentemente a cobrança, vem de cedo, na infância. Em alguns casos motivados por pais que já estão nesse surto de consumo. É como o hábito alimentar. O impulso do consumo termina passando de pai pra filho.

É fácil fugir desse senso comum? Não. Não é. É uma mudança de hábitos e, principalmente, uma mudança cultural. É preciso enxergar que somos maiores que o que temos e que comprar algo de determinada marca não nos diferencia.

Outro ponto fundamental é que esse processo serve, principalmente, de fuga para as nossas frustrações. Buscamos no consumo um espectro de felicidade, que nem de longe virá desta forma. Por pouco tempo nosso cérebro supre essa necessidade. Mas, mesmo que instantaneamente, já estaremos em busca de uma nova aquisição para acalmar essa ansiedade consumidora.

Acho que esse é o primeiro de uma série de textos que vou escrever sobre o tema. Não é fácil. Não tá sendo fácil. Mas tem sido legal dividir essas conquistas.