Pense num toró!

Para quem ainda não sabe, eu moro em Recife, maior capital do mundo. E como toda megalópole que se preze, qualquer bobagem se transforma em um grande evento. Quando chove é assim também. A cidade e as pessoas se transformam. Nem parece que todo ano, nos mesmos meses, acontece tudo igual.

Primeiramente porque Recife é conhecida como a Veneza Brasileira. Não pelos rios Capibaribe e Beberibe, que recortam a cidade, mas pela síndrome de alagamento que nós temos. Basta São Pedro dar um espirro que a cidade toda já tá alagada. Além disso, estamos abaixo do nível do mar, o que facilita todo o processo. Mas se Nova York, Paris, Lisboa e tantas outras cidades também se atrapalham com a chuva porque nós não?

Outro capítulo interessante quando chove é o alvoroço que a turma das SUV’s ficam. A pessoa passa o ano inteiro esperando essa época parar colocar o carro na água e ainda por cima reclamar que alagou. De quebra ainda monta o look chuva recifense, acompanhado de botas e casacos para enfrentar a temperatura de 26 graus.

Outro capítulo a parte são os boatos. Recife gosta de um boato e quando chove então… É alagamento no Plaza, canal da Agamenom transbordando, Tapacurá estourando novamente e por aí vai. É tanto boato que é capaz de São Pedro mandar ainda mais chuva só para acompanhar a criatividade do povo.

Aqui tudo é diferenciado, até a chuva. Afinal, a gente vai comentar o que no elevador além do calor infernal que faz nessa cidade? A chuva, claro.

– Nossa! Que chuva hoje hein?
– Nem fala. Tudo alagado.

Menina dos olhos do mar…

Antônio Maria eternizou: “Sou do Recife com orgulho e com saudade”. Recife a maior capital do Brasil, cidade da maior avenida em linha reta da América Latina, berço do Galo da Madrugada, maior bloco de carnaval do mundo. Recife tão antenada que não precisa de feriado para celebrar aniversário.

Recife de rios, pontes, overdrives e muita história. Berço de índios, portugueses, holandeses, judeus, imperadores e barões, alguns sem a menor nobreza. Recife das batalhas, da Guerra dos Mascates, da Revolução Pernambucana e de Frei Caneca. Recife que adotou, como faz como todos seus filhos, Dom Helder Câmara, nomeado Arcebispo de Olinda e Recife coincidentemente no dia do seu aniversário, em 12 de março de 1964.

Recife de Edgar Morais, Fernando Lobo, João Falcão, Tereza Costa Rego, Geninha da Rosa Borges, Reinaldo de Oliveira, Renato Phaelante… Do Teatro de Amadores de Pernambuco, de João Cabral de Melo Neto. Recife do seu hino escrito por Manoel Aarão e musicado por Nelson Ferreira.

Recife das desigualdades, da periferia, dos morros, dos arranha-céus, da Brasília, de gente honesta e batalhadora. Recife que, de tão poderosa, tem duas mães, Nossa Senhora do Carmo e da Conceição, nossa Ceça. Recife que cresceu dando as costas para sua história e hoje luta para preservar o que sobrou. Recife de encantos mil.

Recife minha cidade, meu berço, meu orgulho. Recife a melhor cidade do mundo. Recife que tem a magia de transformar quatro dias de festa em memória de uma vida inteira. Uma cidade que tem cheiro, tem calor e tem um dicionário próprio.

Recife do recifense, que precisa ter mais carinho por sua cidade. Nossa cidade que corre nas veias as águas do Capibaribe e Beberibe. Faço minhas as palavras de Cícero Dias: “Eu ví o mundo… ele começava no Recife”. Feliz Aniversário.

Fotos: Alcir Lacerda

Obs.: Para o bem da nossa amizade, só quem pode falar mal de Recife sou eu. Grato. A Gerência.

Meu caro amigo Chico Buarque, me perdoe, por favor!

Meu caro amigo Chico Buarque, me perdoe, por favor!

Já nos encontramos algumas vezes, momentos que guardo até hoje. Fico feliz em saber que estarás de volta. Como só agora apareceu um portador, te mando algumas notícias nessa fita, ou melhor, carta. Com coração partido, te escrevo para informar da impossibilidade do nosso encontro.

Quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta. É muita mutreta pra levar a situação, tá puxado. Seu show, mesmo sendo incrível, está distante da minha realidade, com ingressos custando R$490. Ninguém segura esse rojão.

Meu caro amigo Chico, eu não pretendo provocar, mas acontece que não posso me furtar de lhe contar as novidades. Aqui, todo santo dia, é preciso uma pirueta pra cavar o ganha-pão. Mesmo a gente se amando, afinal sem um carinho ninguém segura esse rojão, não dá pra usar quase a metade de um salário mínimo pra gente se encontrar.

Por fim, quero lhe dizer que a Gabriela manda um beijo para os seus. Um beijo na família, nas crianças e na Clara, que lindamente canta Duetos ao seu lado.
Adeus!